terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Fraternidade é Vermelha

Uma belíssima metáfora do poder de julgamento e da bondade humana expressas nas figuras do juíz aposentado vivido por Jean-Louis Trintignant, e da modelo ingênua e honesta, Valentine (Irène Jacob). 
A Fraternidade é Vermelha põe em cheque nossos critérios de avaliação e nos questiona com uma sutileza maestral a respeito do que chamamos de altruismo. Kiéslowski vasculha nosso íntimo e traz para nosso campo de visão, como que denunciando-nos a nós mesmos, os fantasmas que preferimos esconder no abismo de nossas almas. "Nossa incompreensão mútua, a indiferença com que nos tratamos , o não reconhecimento do Outro, a incomunicabilidade das relações no estágio mais agudo." (Ponto de Fuga) 
A comunicação chega a ser ridicularizada num filme que está centrado no relacionamento desenvolvido entre duas pessoas a partir de um estranho hábito praticado por uma delas: espionagem de conversas telefônicas. Um belo paradoxo, uma pertinente reflexão numa dita "Sociedade da Comunicação", o que me faz lembrar do livro de Ciro Marcondes Filho Até que ponto, de fato, nos comunicamos? 
Poderíamos pensar em outras questões levantadas no filme como a enorme e estranha teia da vida, o misterioso conflito das relações humanas, as coincidências não tão coincidentes, a teoria do caos como a queda de uma peça num dominó enfileirado, a impossibilidade de mudança nas escolhas feitas, o devir de Heráclito, as constantes transformações... tudo isso é assustador e belo, mais ainda quando traduzido pela força poética da linguagem cinematográfica de Krzysztof Kieslowski.

3 comentários:

Lost Samurai disse...

Gostei do blog. Super Cult.rsrs
Valeu pelo comment lá no "Lost Samurai". Apareça sempre.
Beijo grande para você!
Fica com Deus!

matheus disse...

Pude ver o Rouge no cineclube do consulado da Frances, com um debate com a Irene Jacob no final (talvez ela ainda está filmando aqui no Brasil). Graças a internet agora eu tô podendo ver as coisas mais antigas do coroa, e tô me surpreendendo bastante. "Amador" é um filmão!

Bom, valeu a visita no blog do Goteira. São blogs assim que a gente quer ver saindo das sessões!

bjs e abs

Amanda Maron disse...

Putz, estou aqui até agora me perguntando quem é você que conhece meus amigos, escreve sobre coisas que eu entendo e eu não faço idéia de quem seja.
Será que você pode acabar com a pesquisa mental que estou fazendo e me dizer seu querido nome?
Thanks.

Sobre o texto, ainda não assisti mas fiquei curiosa por causa do que você diz sobre a comunicação desenvolvida através de espionagem de conversas telefônicas.
Há algum tempo, alguém me mostrou um texto sobre como o nosso lixo entrega o que fazemos ou deixamos de fazer.
Essa relação comunicacional que vai além das palavras muito me intriga.

Ótima dica.